terça-feira, 23 de agosto de 2011





O intelectual Marcos Bayer homenageia o professor Aníbal Nunes Pires, patrono de sua cadeira na Academia Desterrense de Letras, com um discurso amoroso:


Aos poetas mortos

Não choremos nunca a morte do poeta, Foi feliz com todas as mulheres belas. E, eram as chamas dos beijos das donzelas Que crepitavam em cada vela ereta.

Na apoteose de quem alcançava a meta. Flores nas paredes, flores nas janelas, Perfume de versos, recendendo delas, E, livrando uma alma, de sonhos repleta.

Quantas rosas e cravos de tons dispersos! Eram versos, sim; eram bouquets de versos Ao redor do caixão quantos malmequeres!

Os pensamentos, na linda morte imersos, Representavam os miosótis diversos Como se fossem os beijos das mulheres…

A primeira estrofe deste poema está gravada num banco da orla da Praia de Itaguaçu. Tanto o banco quanto as palavras, castigadas pelo tempo, tendem ao desaparecimento. O projeto da nossa confreira Maura Soares, abraçado pela Administração Ângela Amin, corre o risco da morte.

Alguns dos bancos foram pintados. Outros abandonados pela atual administração da cidade, numa prova inequívoca da capacidade de zelar pelo bem público, pela cultura e pelo trabalho poetas filhos desta terra.

Aníbal, autor das palavras ditas no poema, é nome de guerreiro. General cartaginês que pretendia a destruição do poderio romano, contra ele lutou e ao seu retorno foi nomeado magistrado de Cartago para reformar a administração da sua terra. Portanto, neste nome vem embutida uma energia de combate e de ensino.

Rodrigo de Haro, conhecida personalidade catarinense e habitante privilegiado desta Ilha, assim o definiu:

Privei com Aníbal Nunes Pires mais longamente, nos idos de 1950, numa Florianópolis irrecuperável e cheia de contrastes.

Diante de sua obra exígua e quase silenciosa assumir uma atitude crítica parece fútil.

Aníbal foi um amoroso das palavras fundamentais.

Um humanista obstinado e um sábio que, cheio de reverência e melancolia (posso dizer também de ironia…), cultivou caminho mais difícil, a senda que foge da ostentação.

A extensa cultura de Aníbal nunca o desviou do sentimento do quotidiano.

Nem da perspectiva ilhoa que por certo representava. Espírito curioso e lúcido, pleno de fidalguia.

Armando D’Acampora, membro desta Academia, seu aluno, refere-se a ele, assim:

O Professor Aníbal era um homem grande, embora de baixa estatura.

Imagina dominar quarenta alunos entre 16 e 17 anos, no Colégio Catarinense, numa época em que era só para meninos.

Ensinava matemática, mas também sabia literatura, economia, português, comércio internacional, dentre outras coisas. Era o homem das sete matérias, definido por Carlos Magno como o Trivium e o Quadrivium. Acredito que até música ele sabia. Quando nos deixava em prova final, sobre derivadas e integrais, escrevia as questões em um lado o quadro e como não sabíamos responder, na outra metade do quadro começava a resolver de tal maneira que nenhum de nós reprovasse em matemática, achando que o fato de realizarmos a prova final, já era suficientemente pedagógico. Tinha uma voz nasalada e fumava bastante.

Andava sempre de terno e gravata, e tinha uma paciência de Jó. Mas o que impressionava era sua cultura.

Lauro Junkes, outro membro da Academia Catarinense de Letras, a exemplo de Rodrigo de Haro, assim apresenta Aníbal Nunes Pires:

Nascido em Florianópolis, no dia 9 de agosto de 1915, faleceu na madrugada de 24 de abril de 1978, deixando a esposa Eugênia de Oliveira Nunes Pires e, para continuarem seus projetos de humanismo e arte, os filhos: Maria Cristina Nunes Pires, Clarice Nunes Pires Cabral, Maria José Nunes Pires Feijó e José Henrique Nunes Pires, o Zeca Pires, cineasta que mais diretamente prossegue envolvido no projeto de redimensionar o mundo e a sociedade através da arte cinematográfica.

Durante seus cursos em duas Faculdades: Economia e Direito, e ainda no de Contador, Aníbal Nunes Pires se enriqueceu com profunda formação intelectual e humanística, razão pela qual optou sempre pelo exercício do magistério, conciliando áreas tão antípodas como Matemática e Português/Literatura. Em Florianópolis, todas as instituições de ensino de maior relevo – desde o Colégio Catarinense e Coração de Jesus, até as Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras e de Ciências Econômicas da UFSC, bem como a Faculdade de Educação da UDESC – se honraram com a participação do Professor Aníbal Nunes Pires no seu corpo docente.

Filho de Cristóvão Colombo Nunes Pires e de Maria Lima Nunes Pires pertencia a tradicional família na cidade de Nossa Senhora do Desterro: Feliciano Nunes Pires (1786-1860) foi Governador da Província (1831-1935) e Cristóvão Nunes Pires (1834-1894), foi co-fundador do Liceu de Artes e Ofícios do Desterro, foi Deputado e também Governador (1893-1894); Luiz Nunes Pires participou da Constituinte Republicana.

Aníbal Nunes Pires foi, inequivocamente, um autêntico profissional do magistério. Profissional, afirmo, no sentido de dedicação e responsabilidade. Aliava competência intelectual de elevada cultura ao espírito humano de compreensão, bondade e solidariedade.

Suas aulas nunca se resumiam a frias exposições ou ostentação de cultura, que, aliás, não faltava. Dotado de inteligência lúcida, expandida por ampla visão cultural, nunca assumia ares de superioridade, mas seu senso de humildade justa o tornava amigo e colega de todos. Desconhecia atitudes mesquinhas, pois sua modéstia e bondade naturais, seu humanismo fraterno e solidário, seu diálogo sempre acessível e expansivo o tornavam estimado por todos. Professor durante mais de quarenta anos, por suas classes passaram gerações seguidas de pessoas, para cuja educação dedicou o melhor de si, tendo aprendido com a experiência que: “Para ser professor, é preciso, antes de tudo, ter paciência”.

Pode-se estranhar que Aníbal Nunes Pires, professor e intelectual em constante contato com a arte, sobretudo a literária, tenha praticado pouco a arte de escrever. Todos os que o conheceram, no entanto, são unânimes em atestar que sua personalidade fazia-o direcionar suas atividades muito mais para os outros – para estimulá-los e os orientar na apreciação e criação artísticas, ficando sempre em segundo plano sua própria produção. Projetou-se com maior relevância na poesia, sem desmerecer o conto e o ensaio. Publicou apenas o livro de poemas “Terra Fraca”. Os demais escritos, deixou-os dispersos por jornais e revistas e eu os coligi no livro “Aníbal Nunes Pires e o Grupo Sul” (Editora da UFSC, 1982), no qual constam não apenas pormenores da sua carreira, como maior análise dos seus escritos.

Também na poesia, Aníbal Nunes Pires deixa transparecer o perfil de um grande humanista, de uma alma sensível, preocupada com seus semelhantes. Quase todos os seus poemas colhem sua temática no viver cotidiano e revelam a consciência do poeta sobre o caráter transitório e deteriorante do viver humano, evidenciando um contínuo perquirir do significado da existência e do destino de tudo que nos rodeia. Daí provém uma tonalidade frequentemente desilusória e pessimista, superada, entretanto, magistralmente pelo poema final do livro – mensagem de inconfundível confiança no ser humano, ao qual se dirige em “linguagem / que é ternura / que é desapego”, para prenunciar o eterno “Amanhecer”:

Havendo paz, sempre é céu;

Em paz, nunca diremos “não”.

Luz e sombra hão de ser sempre luz.

Eu não tive a oportunidade de conhecer o patrono da cadeira que hoje ocupo nesta Academia. Não sei como ele era. Sequer sei se estou à altura de sua capacidade, comprovadamente manifestada e reconhecida para estar aqui, neste momento.

Mas, uma dimensão desta personalidade eu sei. Desta porque ele está aqui…

Um homem que recebe o sopro do espírito divino para cuidar das letras, para transmitir conhecimento, para despertar vocações e guiar outros homens é um ser privilegiado. Por mais dura que seja a vida, por menos reconhecida que seja a atividade do magistério, e é, ao professor é imputado o poder da expansão civilizatória. É ele que ensina a ler, escrever, refletir, propor, ousar e criar.

Pode ser na universidade, pode ser na aldeia indígena, na Roma antiga, na Academia de Platão ou no Liceu de Aristóteles.

Pode ser em Sagres, onde estudaram os marinheiros que descobriram e circunavegaram o planeta, confirmando nossa globalidade nos 1500, depois visto do espaço por astronautas que estudaram na escola soviética, como Gagarin, em 1961, quando percebeu em nome da Humanidade que a Terra era azul, e os da NASA que chegaram a Lua em 1969.

Foi assim no Renascimento brotado numa Florença medieval que reunia talentos capazes de redimensionar a obra do homem. Leonardo Da Vinci retomava a forma de Marco Vitrúvio, arquiteto romano contemporâneo dos césares, para relembrar a escala humana dentro de um círculo onde cabia o corpo e a expansão dele. Salvador Dalí soube liquefazer a imagem,

Chaplin e Buñel deram-lhe movimento. O movimento humano real foi transposto para uma tela. Nós nos víamos noutra dimensão. Pablo Picasso pintou em dois tons predominantes, azul e rosa, antes de desconfigurar para reconfigurar a forma. Miró brincou conosco compreendendo que somos pequenas peças coloridas no Universo móbile. Van Gogh colocou sobre a tela branca a textura da massa em relevo para depois pintar a noite mais estrelada de todos os tempos. Victor Hugo descreveu como ninguém a miséria e a grandeza do caráter humano. Nureyev e Baryshnikov voaram sobre os tablados como tantos atletas o fizeram nas pistas olímpicas. Vozes tantas, de Frank Sinatra a Dionne Warwick, de Pavarotti a Ella Fritzgerald. Compositores que liam a aventura humana através das notas musicais, como Mozart, Wagner ou Jobim.

Nós vivemos mais uma etapa desta irrevogável expansão civilizatória representada pela cibernética, pela comunicação instantânea e pela consequência imediata do ato humano.

Nunca fomos tão fortes e tão frágeis, simultaneamente. Nunca a experiência humana foi tão interdependente. Nunca foi tão necessário homens de letras, professores e formuladores, escritores e poetas, cineastas e atores. Músicos e tocadores. A sinfonia da vida será sempre necessária…

Nunca foi tão necessário o sopro divino que tocou o espírito de Aníbal Nunes Pires.

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